Fora do texto Dentro do texto
Meus professores, coitados, formados pelo puro pensamento acrítico colonial, mesmo quando esse pensamento parecia fantasiado de alguma rebeldia, era puramente colonial e elitista, elementos do mesmo pacote da formação intelectual que vigorou por tanto tempo. Desesperadamente tentavam nos convencer que fora do texto não há salvação, que os elementos estéticos mobilizados pela autoria era a única autoridade do texto. Eles gozavam com as bilabiais que o Vinícius usou em um dos seus poemas apenas para ser o que ele sempre foi, um safado, um poeta safado. E outras mesmas coisas sempre mostradas para dizer como só vale a pena tudo do limite para dentro do texto.
Visto por alguém tão sem compromisso com qualquer projeto de continuidade dessa estética cansada, digo cansada e não feia, também acho bobinho quem diz nada presta com a mesma facilidade de quem diz tudo presta, estava na cara o desmoronamento preste a acontecer. Entrei no curso de letras no ano de 2012, fora da academia, nos clubinhos de leitura dos cafés da cidade de Fortaleza, as coisas também não era muito diferente, eu vi em menos de um ano, por exemplo, Dona Conceição passar de chacota para endeusada.
Na perspectiva do trabalho é realmente cansativo, além de complicado financeiramente, ter seu fazer literário catalogado: preto, periférico, lgbtqiapn+, nordestino, esses elementos fora do texto não simplesmente passou a importar alguma coisa, sempre importaram e estiveram lá. Para todo mundo, seja para quem vai se infiltrando para tomar para si e transformar em um Grande sertão, seja para quem é de dentro e faz seu Quarto de Despejo.
O texto pelo texto não existe e nunca existirá, quem existe são as pessoas que escrevem, os lugares, as sensações, os acontecimentos, os espaços geográficos, as prosódias, os usos da linguagem, e até aquilo que parece mais original possível em literatura é apenas uma observação muito atenta de si e da vida que uma boa autora faz.
Todas as implicações sociais, políticas e até sexuais vai interferir no texto, ainda mais, vai interferir na recepção do texto que também é texto. Não se engane, a leitura ainda é a feitura da obra, a obra que nunca se acaba, sempre à deriva do fora do texto.



Talles, teu texto me pegou justamente nessa ideia de que “fora do texto não há salvação”, o que sempre me soou mais como um mecanismo de controle do que como teoria. Também carrego uma certa ojeriza desses espaços, sejam acadêmicos ou “clubinhos”, onde a disputa de ego se disfarça de rigor crítico. E é curioso como aquilo que chamam de “fora do texto” nunca esteve realmente fora... o corpo, o território, a classe, o desejo… tudo sempre escreveu junto. Talvez o que esteja ruindo não seja a estética em si, mas essa ilusão de neutralidade que sustentou tanta leitura. Teu texto abre frestas importantes pra gente lembrar que literatura é vida em estado de linguagem, e não um laboratório isolado do mundo.