O romance do pavão mysteriozo: partir é partir-se
De cabo a rabo: discos como se fossem livros
Amanhã se der o carneiro, o carneiro
Vou-me embora daqui pro Rio de Janeiro
Gosto de escutar discos como se fossem livros, um hábito um pouco em desuso devido ao modo de consumir a música hoje, através de playlist e dos aleatórios algorítmicos das plataformas de streaming. O modo de produzir música atual segue esse novo suporte, afinal forma sempre interferiu no conteúdo.
Na coluna De cabo a rabo irei compartilhar alguns álbuns cujos decidi dedicar-me a escutar integralmente, da primeira a última faixa, da primeira a última página, como se fosse um livro.
O Romance do Pavão Mysteriozo(1974) de Ednardo foi o escolhido para esta primeira edição. Motivo: gosto muito do músico, mas o escutava através de outras obras, coletâneas, ou músicas dispersas, e mais do que nunca ele está em alta, foi sampleado recentemente pela artista Urias e por DonL. Teve uma biografia musical lançada, um disco antigo restaurado e disponibilizado, e fez diversas aparições e shows nos últimos anos.
No Ceará costumamos afirmar que somos um povo espalhado, em um tom jocoso escondendo a realidade triste de um Estado que durante quase toda história sempre foi um território empobrecido, por questões climáticas e políticas. Por consequência formando um povo sempre em busca de uma chance de sobreviver com dignidade, para isso migrar era uma das poucas alternativa.
No Romance do Pavão Mysteriozo parece que estamos diante de um homem partido pois teve que partir para tentar em outro lugar, o sudeste, uma chance. E se no início vamos ter a esperança retratada em formato de jogo do bicho, aspiração de possuir os recursos necessários para empreitar a grande viagem, seguido da benção da mãe na faixa seguinte:
Que Deus lhe dê Boa sorte, fortuna e felicidade
Nos anos 70 em que as distâncias era ainda maiores e que não era possível ter relevância se não fosse realmente fazendo esse deslocamento, em algum momento sendo artista você teria que partir. O que restava era a saudade, a melancolia, o desespero, desilusão. Ter que viver, trabalhar e amar em uma terra estrangeira, tudo isso fica explícito nas faixas Ausência, Varal e Dorothy Lamour
A faixa Desembarque sétima do disco, é o momento em que o autor finalmente entende, organiza seus sentimentos e se contrapõe em revolta: Não me dê /Aquele abraço sem jeito /De quem quer consolar /Não vá tentar / Conseguir meu sorriso/ Na hora em que quero chorar. Relembrando para si mesmo qual era a sua ambição desde o início de sua partida: Eu só queria saber/Onde se encontrava/Aqueles sonhos/Que a vida inteira a gente sonhava.
Mesmo assim é necessário seguir. Outro mito sobre nossa gente é a resiliência do trabalho, da dedicação, e a vejo explícita na canção em parceria com o Fausto Nilo, Trem do Interior: Amanhecendo /Meus passos estão sem norte /Pra recompor serei forte /. E faz em seguida uma das afirmações poéticas mais bonita do disco:
Meu coração viaja num trem do interior
O imperativo de continuar mesmo do jeito que for, como leveza e esperança, pelo menos a leveza que restou, nos chega na cela da faixa alazão, explícita não apenas em sua letra expondo um cavalo desenfreado correndo e saltando todas as dificuldades metafóricas apresentadas, mas também no seu ritmo agora mais alegra, mais sereno, passado o meio tenso e noturno do disco.
A viagem de Ednardo em o Romance do Pavão Mysteriozo vai chegando ao fim com uma das músicas mais famosas composta por Belchior, A Palo Seco, afirmação de uma juventude brasileira, que deseja se reconhecer na sua diferença e na sua identidade latina e não na homogeneização das influências americanizadas sempre em alta na indústria musical.
Não atoa, esse canto torto contando feito faca, oferece mais entendimento de si para o cantor. Ele reflete sua ingenuidade inicial: A primeira vez que eu vi São Paulo /Fiquei um tempão parado/Esperando que o povo parasse. Temos uma canção de retorno, o sonho sonhado por nossa gente de como seria bom se fosse possível viver plenamente em nosso próprio chão.
Adeus São Paulo
Está chovendo pras bandas de lá
Terminando ao som do Maracatu que referencia um dos mais famosos cordéis da literatura popular nordestina, o Pavão Mysteriozo. Ironia do destino ou não, justamente uma das músicas mais famosas do Ednardo, talvez a mais cearense em ritmo no álbum, e que fez parte de um dos grandes sucessos televisivos da rede globo, a novela Saramandaia.
O Romance do Pavão Mysteriozo é um disco para ouvir de cabo a rabo e se encantar a cada verso do cantor e de seus parceiros e parceiras. É um álbum para entender porque tantos de nós foram embora, mais ainda, porque tantos de nós querem voltar.



Muito bom o texto!! Acho que nunca cheguei a ouvir o álbum inteiro, vou ouvir agora!
Taí, vou ouvi o álbum todo. Valeu a inspiração, Talles!